A carta

Por Aurélio Hess e Celso Campos.

Prezada Kate,

Sugiro que queime esta carta logo após a leitura. Estou usando o sistema de correspondência tradicional porque hoje é o mais improvável. E-mail e sistemas on-line são facilmente monitorados, e não queremos isso em assunto tão grave.

Não creio que seja necessário insistir em agradecer o que eu, na verdade, teria feito por qualquer pessoa. Já fiz outras coisas por muitas pessoas e elas nunca souberam, nem saberão.

O dinheiro que foi pago no tratamento não é relevante para mim, logo, você não deve ter a preocupação de devolver. Deve esquecer o assunto.

O médico que fez o tratamento é muito ético. Não fez o tratamento apenas por ser meu amigo. Teria feito o tratamento para qualquer pessoa que necessitasse. Não fez nenhum favor especial para mim. Apenas solicitei que, cuidando do pai de Mark, me mantivesse informado de qualquer coisa de que necessitasse, para que não corrêssemos risco de qualquer atraso que viesse a comprometer o tratamento. O médico sabe que os idosos precisam de cuidados redobrados, bem como devem ter suas necessidades atendidas em velocidade maior.

Também entendi que você me procurou apenas para justificar qualquer eventual comportamento inadequado do Mark, não exatamente para pedir ajuda.

E, sim. Fiz questão que o hospital guardasse anonimato – usando um pseudônimo feminino – no caso do transplante de medula, e o teria feito tendo doado para qualquer outro necessitado que não o pai de Mark.

Quando fui informado de que já haviam sido feitos quase cem testes de compatibilidade, entendi que estava muito difícil para ele encontrar um doador. Soube que nem o próprio Mark foi compatível – uma brincadeira amarga da natureza, não poder salvar seu próprio pai. Como sou doador de sangue do tipo universal, arrisquei um teste para ver se também seria doador compatível de medula. Bingo! Outra ironia da vida.

Esta carta não deve ser lida por mais ninguém, especialmente por Mark. Ele não deve sofrer nenhum tipo de constrangimento, para que possa fazer seu trabalho jornalístico com isenção e ética. Os jornalistas devem seguir seus princípios éticos ao longo de toda a vida, vigorosamente, para que seu trabalho seja a bandeira que sinaliza as autoridades de que estão sendo monitoradas, que não podem cometer abusos. E Mark me parece o tipo de pessoa que tem este princípio em boa forma.

Também não há registros acessíveis no hospital, nem do transplante, nem dos valores pagos, pelo mesmo motivo. Por isso insisto que queime esta carta no final da leitura. Não queremos que o Mark seja traído por outras “brincadeiras” do destino. Nem por alguém que, inescrupulosamente, venha a usar no futuro, este acontecimento com propósitos escusos. Sou hoje, um admirador da postura profissional e pessoal do seu amado noivo. Ele ainda tem certas posições e opiniões um tanto radicais, mas isto é típico da inexperiência e da juventude. Vai corrigir isso ao longo do tempo. Vai aprender lições importantes ao longo da vida.

Desejo que sejam muito felizes em seu casamento. Acabei por tornar-me também seu admirador Kate, ao ver todo o seu esforço anônimo na busca de soluções para o difícil tratamento de seu sogro. Soube que procurou muitas pessoas, lutou por muitos recursos, investigou soluções e até pesquisou sobre medicina quando viu Mark sofrendo por não poder salvar seu próprio pai. Sei que só veio a mim por absoluto desespero e como último recurso. Entendo também que manteve isso em segredo para que Mark não fosse prejudicado. Seu amor por Mark e a beleza de suas atitudes me levaram a lembranças de um grande amor do passado. Aprendi a nutrir também um sentimento de respeito e admiração por Mark. Creio que este jovem jornalista ainda fará muitos trabalhos importantes para o povo inglês e, quem sabe, para toda a humanidade.

Felicidades.
Bórkum.

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Aurélio Hess, graduado em Administração de Empresas, Mestre em Administração e Planejamento Financeiro pela PUC/SP e MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV/SP, trabalha com projetos há mais de 20 anos. Atualmente Controller de Projetos, já atuou em 5 das 20 maiores empresas brasileiras, dentre elas, Bradesco, Sharp, Gradiente, Tectoy e CSN – Cia. Siderúrgica Nacional. Professor Universitário nos últimos 15 anos em algumas das maiores universidades do país. É autor das seguintes obras: Gestão Financeira de Negócios (Cart-Impress, 2005) e Relações Internacionais, crise e muito mais… (Scortecci, 2015).

Celso Ribeiro Campos é Físico, Engenheiro, Mestre em Ensino da Matemática e Doutor em Educação Matemática pela UNESP. Professor da PUC-SP, ministra as disciplinas de Economia Matemática, Econometria e Microeconomia nos cursos de graduação em Ciências Econômicas e Mestrado Profissional em Economia da Mundialização e do Desenvolvimento (em parceria com a Université Paris 1 – Panthéon Sorbonne). É membro do Grupo de Pesquisa em Educação Estatística da UNESP e autor das seguintes obras: Matemática Financeira (LCTE, 2010) e Educação Estatística – teoria e prática em ambientes de modelagem matemática (Autêntica, 2011).

Os textos que fazem parte da história “Relações Internacionais, Crise e Muito Mais…” são de total responsabilidade dos seus autores. A equipe do Análise Econômica não interfere no seu conteúdo, forma, ortografia, gramática. Solicitações de reprodução devem ser dirigidas diretamente a eles.

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