A outra carta

Por Aurélio Hess e Celso Campos.

Prezado Sr. Mark,

Sou inimigo do Sr. Bórkum Platz e sei que isso lhe interessa.

Não suporto a presença do Sr. Platz, mas isso não me dá o direito de dizer nada além da verdade. Minha dignidade não permite.

Soube que tem procurado pessoas que possam dar informações sobre o Sr. Bórkum. Também soube que tem investigado a vida do Sr. Platz na tentativa de descobrir algo que o desabone. E acredito que suas intenções são de desnudar qualquer acontecimento que possa revelar comportamentos reprováveis.

Acredito Sr. Mark, apesar de não conhecê-lo, nos seus propósitos de jornalismo justo e ético. Acredito na sua conduta nobre e correta. Então, sendo assim, vou responder as perguntas que fez a outras pessoas nas suas investigações.

Começo falando um pouco da minha ligação com o Sr. Bórkum Platz.

Tenho sessenta e cinco anos e vivi cada um deles com muita lucidez. Não me deixei escorregar na tendência de cometer desvios que pudessem me comprometer.

Com muita dificuldade, consegui superar a pobreza e instruir-me, casando-me com uma colega de faculdade, a quem amo e respeito profundamente até hoje.

Tivemos dois filhos. Christine e Marcelo.

Dedicamo-nos a orientá-los e amá-los desde o início de suas vidas. E os resultados deste amor e dedicação foram os melhores.

Marcelo tem sucesso pessoal e profissional. É digno, bondoso e correto. Tem uma esposa maravilhosa e dois filhos que são a razão da minha vida.

Christine tornou-se uma mulher muito bonita, de caráter rígido, não obstante o humor inabalável. Capaz de combinar sofisticação e humildade com uma harmonia que pouco se vê no mundo. Muito estudiosa e cheia de preocupações ideológicas, acreditava que poderia melhorar o futuro do seu país. Tornou-se professora universitária, sendo homenageada em todos os anos que lecionou. Muito querida pelos alunos, tinha a tranquilidade e a segurança dos que sabem o que estão fazendo da maravilhosa oportunidade de trabalho que a vida oferece. Muito charmosa e educada, incapaz de ser deselegante ou agressiva com qualquer pessoa, transitava com facilidade em todos os meios, dos mais opulentos aos mais simples. Defensora da justiça empregava seu conhecimento e sua inteligência, para instruir quantos passassem pelo seu caminho, de todas as formas imagináveis. Acreditava que instruídos, todos seríamos mais juntos, competentes e bondosos. Acreditava que o mundo precisa da caridade para que nos lembrássemos da nossa pequenez, mas que a solução real dos problemas da humanidade viria pela instrução e pela justiça.

Mas Deus, supostamente justo, também queria Christine perto dele, e à levou, deixando-me com uma lacuna que não creio ser capaz de preencher.

Sim. O Sr. Platz tem vindo ao Brasil visitar os amigos, dentre eles minha esposa e meu filho. Ambos dedicam a ele a amizade e o amor que eu não consigo. Marcelo tem no Sr. Platz o irmão que eu não pude lhe dar. Aprende com ele muitas coisas que poucas pessoas no mundo seriam capazes de ensinar. Minha esposa vê o Sr. Bórkum como um terceiro filho. Às vezes acho que o ama mais do que a mim. Mas isso provavelmente é injustiça minha.

Bórkum também aproveita cada uma de suas viagens ao Brasil para visitar, na companhia de minha esposa, o orfanato, do qual é mantenedor, e o faz no anonimato. O orfanato abriga, dentre outras muitas crianças abandonadas, os irmãos mais novos do rapaz que assassinou minha filha Christine. Bórkum acredita que se essas crianças tiverem a oportunidade de conhecer o amor, não farão opção pela criminalidade. Por isso, com um esforço pessoal inacreditável, só comparável ao da minha esposa, superou a dor da perda e apóia a família do assassino, que faleceu na prisão um ano depois de seu tenebroso ato.

Conhecendo este homem, creio que suas viagens são secretas e que ele não fala do Brasil por acreditar que atos altruístas devem ser anônimos. E acredito também que evita o assunto por que a dor ainda está muito presente em sua vida, como está na minha.

Eu, Sr. Mark, nunca me permiti conviver com o Sr. Bórkum Platz. Sua presença me traria lembranças que ainda não sou capaz de suportar. Minha esposa, no entanto, que tem convivido com ele desde o acontecimento fatal, o define com palavras que até já me causaram certa inveja. Segundo ela, o Sr. Bórkum é um homem muito bonito. Sua beleza reside, porém, na mais profunda e completa acepção da palavra. A da força interior para vencer obstáculos. A da coragem de ser ético, pagando os preços mais altos pelas decisões mais difíceis. A da ousadia de perseverar quando todos já desistiram. A de continuar acreditando no certo, quando o errado é mais fácil e todos já o praticam há tempos. De assumir seus equívocos e optar pela reorganização do que desorganizou. Tem aquela coragem rara de calar, mesmo quando está visivelmente certo, para não ser hostil com alguém menos afortunado em inteligência ou educação. Embora forte e de tom imponente, jamais se teve notícia de que tenha ofendido ou agredido alguém, ainda que somente com palavras. Sua educação refinada não permitiria elevar o tom com quem quer que seja. Sua origem escandinava e sua educação inglesa contribuíram muito para torná-lo o que é, acredita minha esposa. O restante de seu marcante caráter é, provavelmente, resultado de sua crença fundamental, definida em suas próprias palavras: “o ser humano existe para evoluir, em todos os âmbitos da vida. Assim sendo, cabe-me fazer o melhor, aprender mais sobre tudo, organizar o que está desorganizado, consertar o que se quebrou, construir o que ainda não existe, desvendar o que a natureza insiste em esconder, oferecer aos que não tem e ensinar aos que não sabem.”

Um homem e um amigo como poucos, diz ela.

Eu não gosto do Sr. Bórkum, mas conheço a minha esposa e sei o quanto ela é criteriosa e justa. E, assim, acredito em seu julgamento.

Reafirmo Sr. Mark, que não consigo gostar do Sr. Bórkum, pois se ele não tivesse conhecido Christine, não estivesse naquela noite, naquele carro, naquela avenida, talvez Christine ainda estivesse entre nós.

Mas também digo senhor Mark, que se o senhor tiver a oportunidade de conhecer melhor o Sr. Bórkum, certamente verá nele um amigo como poucos. E se tiver a oportunidade de ser próximo, de compartilhar sua amizade, não deve deixar que nada lhe tire a oportunidade de conviver com esta figura de dignidade incontestável. Sugiro que jamais faça nada que possa macular sua amizade, pois, como diz minha esposa, “não se conhece alguém como Bórkum Platz todos os dias”.

Seja justo e honesto sempre Sr. Mark.

É o que Bórkum faria.

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Aurélio Hess, graduado em Administração de Empresas, Mestre em Administração e Planejamento Financeiro pela PUC/SP e MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV/SP, trabalha com projetos há mais de 20 anos. Atualmente Controller de Projetos, já atuou em 5 das 20 maiores empresas brasileiras, dentre elas, Bradesco, Sharp, Gradiente, Tectoy e CSN – Cia. Siderúrgica Nacional. Professor Universitário nos últimos 15 anos em algumas das maiores universidades do país. É autor das seguintes obras: Gestão Financeira de Negócios (Cart-Impress, 2005) e Relações Internacionais, crise e muito mais… (Scortecci, 2015).

Celso Ribeiro Campos é Físico, Engenheiro, Mestre em Ensino da Matemática e Doutor em Educação Matemática pela UNESP. Professor da PUC-SP, ministra as disciplinas de Economia Matemática, Econometria e Microeconomia nos cursos de graduação em Ciências Econômicas e Mestrado Profissional em Economia da Mundialização e do Desenvolvimento (em parceria com a Université Paris 1 – Panthéon Sorbonne). É membro do Grupo de Pesquisa em Educação Estatística da UNESP e autor das seguintes obras: Matemática Financeira (LCTE, 2010) e Educação Estatística – teoria e prática em ambientes de modelagem matemática (Autêntica, 2011).

Os textos que fazem parte da história “Relações Internacionais, Crise e Muito Mais…” são de total responsabilidade dos seus autores. A equipe do Análise Econômica não interfere no seu conteúdo, forma, ortografia, gramática. Solicitações de reprodução devem ser dirigidas diretamente a eles.

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