Capitalismo em crise

Por Márcio Durigan e Franklin Lacerda

Nós vivemos em um sistema conhecido como capitalismo, que tem algumas características básicas:

  1. as trocas;
  2. a acumulação.

Muitos podem dizer que o ser humano sempre realizou trocas. Não nos interessa refutar se é ou não algo inerente à nossa condição. O ponto nevrálgico é que as trocas se exacerbam no sistema capitalista. Tudo está passível de troca. No limite, “o dinheiro compra até o amor verdadeiro” [1].

A acumulação, por conseguinte, é menos discutível, mas coloquemos em perspectiva. O ser humano sempre produziu excedente, ou seja, sempre produziu mais do que precisava para se manter. Mas no sistema capitalista, o excedente adquire outra configuração.

Ele passa a ser o objetivo primeiro da produção. As empresas querem lucros sempre maiores, os indivíduos querem salários sempre maiores [2], os governos querem superávits cada vez maiores [3]. Assim, passam a produzir para acumular mais e produzir mais e acumular mais, e por aí vai…

O ponto que nos interessa chegar dadas essas duas características básicas é a “limitação de territórios“, sejam eles físicos ou não. Vejamos dois exemplos.

Olhando sob a perspectiva das trocas, uma empresa precisa obter algum “diferencial” para que seu produto ou serviço seja desejado pelos consumidores. Logo, isso implica em impedir que seus concorrentes saibam quais são esses diferenciais. Há portanto uma limitação nas informações que a empresa divulga sobre seus produtos ou serviços.

Sob a ótica da acumulação, importante observar que ela sempre se dá em um território físico delimitado. Os países (através de suas empresas e governos) acumulam capital para, grosso modo, criar melhores condições de vida para a população. Mas para manter essas condições, precisam delimitar, inclusive, o fluxo e a quantidade de pessoas no território.

Essa breve reflexão sobre o modo de produção em que vivemos (leia-se, novamente, capitalismo), ajuda-nos a compreender boa parte da reação da Europa e demais países desenvolvidos quanto à recepção dos refugiados das guerras no oriente médio, especialmente na Síria.

O problema é bastante complexo e exige olharmos também sob a ótica dos países que se encontram em estado de emergência. Mas se observarmos atentamente, veremos que se trata de mais uma peça do grande quebra cabeça que se traduz no título desse editorial: capitalismo em crise.

O mundo se encontra globalizado, extremamente conectado, e alguns paradigmas começam a cair por terra. Um paradigma em especial nos interessa: por que manter nações na miséria e outras nações em situação extremamente próspera?

Enquanto não conseguirmos responder essa pergunta e, mais do que isso, encontrar soluções concretas para os problemas que se impõe aos nossos olhos, continuaremos vendo exemplos como de Aylan Kurdi, de apenas 3 anos, de seu irmão Galip, de 5, dentre outros, morrendo na praia…

Para compreender ainda mais a situação, vale a pena ler https://anistia.org.br/sete-perguntas-sobre-os-refugiados-e-migrantes-que-estao-morrendo-mediterraneo/

Notas

[1] Frase do célebre jornalista e escritor brasileiro Nelson Rodrigues (1912 – 1980).

[2] Existem discussões calorosas sobre esse impasse lucros x salários. Para alguns autores, os lucros são salários não pagos, portanto, fruto de exploração. O que implica necessariamente que para que os lucros sejam maiores, os salários sejam menores. Para outros, ambos são remunerações de fatores de produção: o lucro é a remuneração do capital e o salário a remuneração do trabalho. Isso significa que as remunerações são pagas de acordo com o nível de produtividade e, assim, não há relação de exploração.

[3] O debate sobre o superávit primário também é bastante profundo. Basicamente, questiona-se se há a necessidade do governo, em determinado período, apresentar um saldo positivo. A resposta para essa indagação divide opiniões.

Créditos da imagem – http://bit.ly/1KnZ90M
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