Carta Mensal de Abril de 2018

A carta mensal de abril de 2018 apresenta as perspectivas da Análise Econômica Consultoria para as principais variáveis macroeconômicas. Acompanhe.

PERSPECTIVAS

Atividade Econômica (PIB)

No último dia 19, o Banco Central divulgou o índice de atividade econômica (IBC-Br), referente ao mês de janeiro. Segundo a autoridade monetária, houve recuo de 0,56% no indicador na comparação com dezembro do ano passado. A queda foi ainda maior nos dados observados, ou seja, sem ajuste sazonal, -2,53%.

Na comparação com o mesmo mês do ano anterior a variação foi positiva em 2,9%, ante avanço de 4,47% no mês de dezembro no mesmo tipo de comparação, ambas com ajuste sazonal. Na comparação trimestral, o resultado do trimestre findo em janeiro deste ano foi +1,32% superior ao trimestre imediatamente anterior, trata-se da leitura mais elevado desde o trimestre findo em abril de 2017.

Maior setor da economia brasileira, o setor de serviços, voltou a apresentar queda. Depois de apresentar um avanço de 1,5% no mês de dezembro, em janeiro a variação ficou negativa em 1,9%, ambas as variações com relação ao mês imediatamente anterior e com ajuste sazonal.

Neste tipo de comparação, trata-se da maior queda desde o mês de março de 2017. Na comparação com janeiro de 2017 o recuo foi de 1,3%. No acumulado em 2017 meses a queda foi de 2,7%.

Das cinco categorias que compõem a pesquisa mensal do setor de serviços, apenas uma, outros serviços, apresentou-se positiva (+3,8%). A categoria com maior recuo na comparação com o mês de dezembro anterior foi a categoria de Transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio, cujo recuo foi de 3%, ante alta de 2,6% no mês anterior neste mesmo tipo de comparação.

Já o comércio varejista, importante segmento da economia brasileira, apresentou, em janeiro, volume de vendas 0,9% superior ao mês de dezembro de 2017. O resultado foi acompanhado por expansão de 0,6% na receita nominal no mesmo tipo de comparação.

Na comparação com o mesmo mês do ano anterior houve avanço de 3,3% e 3,2% no volume de vendas e na receita nominal do setor, respectivamente. No acumulado em doze meses os avanços foram de 2,5% e 2,3% nos mesmos termos.

Quando incluídos os setores de veículos e motos, partes e peças e Materiais de construção, perfazendo o que é conhecido como varejo ampliado, o resultado do mês apresentou-se de forma antagônica. A variação de janeiro com relação ao mês de dezembro último foi negativa em 0,1%, enquanto que a receita nominal acabou por expandir-se no mesmo tipo de comparação.

Na comparação interanual as variações de volume e de receita ficaram positivas em 6,5% e 6,6% respectivamente. E no acumulado em doze meses as variações foram de 4,6% e 3,9% nos mesmos termos.

O setor industrial mostrou variação negativa de 2,4% no mês de janeiro na comparação com o mês imediatamente anterior. O recuo se dá depois da alta de 3,1% no mês de dezembro neste mesmo tipo de comparação. A queda de janeiro interrompeu quatro altas consecutivas no setor.

Além disso, trata-se da queda mensal mais acentuada desde a queda de fevereiro de 2016, quando a queda alcanço 2,5%. Na comparação interanual, houve avanço de 5,7%, enquanto que no acumulado em doze meses o avanço foi de 3,6% que, segundo o IBGE trata-se do resultado mais elevado para este tipo de comparação desde junho de 2011.

Dos 24 ramos industriais abrangidos pela pesquisa, 19 apresentaram recuo na comparação mensal, sendo o setor da indústria de automóveis o que apresentou maior recuo -7,6%.

Na observação das variações por grandes categorias econômicas, o destaque negativo foi a variação dos Bens Intermediários, cuja variação mensal ficou negativa em 2,4%, seguida pela categoria de Bens de consumo, cuja variação também ficou negativa em 1,6%, puxada pelo segmento de bens de consumo duráveis que apresentou queda de 7,1%. Todos na comparação com o mês de dezembro e com ajuste sazonal.

Apesar das ressalvas sobre o crescimento do setor industrial nas comparações interanual e no acumulado em doze meses, o resultado de janeiro colocou a indústria nacional no nível média pré-crise de 2008 e na média dos anos posteriores, porém muito abaixo dos níveis atingidos entre os anos de 2014 e 2016, conforme pode ser visto no gráfico abaixo:

Mercado de Trabalho (Pnad Contínua)

Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, a taxa de desocupação no trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018 subiu 0,6 ponto percentual (para 12,6%) em relação ao trimestre de setembro a novembro de 2017 (12,0%). Já em relação ao mesmo trimestre móvel do ano anterior (13,2%), houve queda (-0,6 ponto percentual).

A população desocupada (13,1 milhões) aumentou 4,4%, ou seja, mais 550 mil pessoas em relação ao trimestre anterior (12,6 milhões). No confronto com igual trimestre do ano anterior, quando havia 13,5 milhões de desocupados, houve queda (-3,1% ou menos 426 mil pessoas nesta situação).

A população fora da força de trabalho (64,9 milhões de pessoas) cresceu 0,8% (ou mais 537 mil pessoas) em relação ao trimestre de setembro a novembro de 2017 e chegou ao seu maior nível na série histórica da Pnad Contínua, iniciada em 2012. Frente ao mesmo trimestre de 2017, houve estabilidade.

A população ocupada (91,1 milhões) recuou (-0,9% ou menos 858 mil pessoas) em relação ao trimestre anterior. Em relação ao mesmo trimestre de 2017, houve aumento (2,0% ou mais 1,7 milhão de pessoas ocupadas).

O número de empregados com carteira de trabalho assinada (33,1 milhões) ficou estável frente ao trimestre anterior (setembro a novembro de 2017). No confronto com o trimestre de dezembro/2016 a fevereiro/2017, houve queda (-1,8% ou menos 611 mil pessoas). Esse contingente chegou ao seu menor nível na série histórica desde 2012.

O número de empregados sem carteira de trabalho assinada (10,8 milhões) recuou (-3,6%, ou menos 407 mil pessoas) em relação ao trimestre anterior, mas subiu 5,0% (mais 511mil pessoas) em relação ao mesmo trimestre do ano anterior.

A categoria dos trabalhadores por conta própria (23,1 milhões de pessoas) ficou estável em relação ao trimestre de setembro a novembro de 2017. Em relação ao mesmo período do ano anterior, houve alta de 4,4% (mais 977 mil pessoas).

Nível de preços (IPCA)

O índice oficial de preços no Brasil, IPCA, ficou em 0,32% no mês de fevereiro, perfazendo uma variação anual de 2,84%, abaixo dos 2,86% nos doze meses encerrados em janeiro deste ano. Diferentemente do resultado de janeiro, a variação de preços do grupo de alimentos ficou negativa (-0,33%), o que contribuiu para frustrar a maior parte das expectativas do mercado e do próprio governo.

Além deste, em fevereiro, outro grupo a apresentar deflação foi o de vestuário, cuja variação foi de -0,38%. Todas os outros grupos apresentaram avanço no mês, sendo o grupo ligado à educação o que apresentou maior variação +3,89%.

Pelo comportamento do IPCA-15, cuja variação de +0,10% no mês de março – menor variação para o mês de março de toda a série histórica – e do IPC-S, divulgado pela Fundação Getúlio Vargas, cuja média semanal do mês de março não chega aos +0,13%, nos fez alterar a projeção do IPCA para o mês de março.

Esperamos agora uma variação positiva em 0,12%, perfazendo uma inflação anual de +2,71%, a menor variação para o primeiro trimestre do ano em toda a história do Plano Real.

Já o Índice Geral de Preços Mercado, IGP-M, índice amplamente utilizado como indexador na economia brasileira em contratos variados, voltou a apresentar-se com variação anual positiva. Com a variação de +0,63% no mês de março, o indicador que havia ficado nove meses apresentando deflação, fechou o acumulado em doze meses no campo positivo em 0,20%.

As principais contribuições para a aceleração do indicador nos meses anteriores vieram do Índice de Preços ao Produtor Amplo, responsável por 60% do IGP-M.

Apesar de alguma surpresa vinda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, sobre a diminuição da área de cultivo de milho e trigo, as commodities agrícolas, em geral, têm mostrado tendência de queda, o que deve disciplinar a tendência de alta do IGP-M nos próximos meses.

Esse movimento de atenuação da alta, no entanto, pode ser apagado por possíveis desequilíbrios cambiais advindos das guerras comerciais internacionais e do processo político no Brasil.

Política Monetária (Juros)

A queda do IPCA nos últimos meses tem obrigado o Banco Central do Brasil a prolongar o ciclo de cortes da taxa básica de juros. Pela décima segunda oportunidade consecutiva, a autoridade monetária do Brasil, por meio do Comitê do Política Monetária, optou por cortar a taxa básica de juros.

Desta vez o corte foi de 0,25%, colocando a Selic em novo patamar histórico: 6,5% ao ano. Em nota, o Banco Central anotou a possibilidade de novos cortes, principalmente nas duas próximas reuniões do Comitê, que acontecerão nos dias 15 e 16 de maio e 19 e 20 de junho deste ano.

Ao entender a baixa correlação da Selic com a taxa de juros do mercado, o CMN tem adotado políticas monetárias expansionistas em outras frente, quais sejam: diminuição do compulsório – dinheiro retido pelo Banco Central a título de garantir a solvência do setor bancário em caso de crise financeira – de 40% para os atuais 25%, além de vir trabalhando sobre a redução média da taxa de juros do mercado de varejo, como os do crédito rotativo do cartão de crédito.

Pela forma como os gastos públicos estão engessados, pelos sucessivos e intermináveis déficits primários e pela falta de investimento do setor privado, o governo entende que uma saída para o crescimento de curto prazo viria do consumo de empresas e famílias, ou seja, a política monetária expansionista deve permanecer em voga nos próximos meses.

Câmbio (BRL/USD)

O dólar segue no patamar de R$ 3,30. Para ser mais exato, no final de março, a cotação foi de R$ 3,34. Depois de ter ultrapassado a barreira dos R$ 4,00 no início de fevereiro de 2016, até junho daquele ano houve uma forte valorização, colocando o dólar no patamar atual.

Pressões pontuais têm ocasionado inflexões na cotação da moeda, especialmente ligadas às expectativas com o cenário político, tanto interno quanto externo. Mas não somente. Pressões advindas de fatores tipicamente de mercado – como a negociação de commodities – também tem exercido alguma pressão.

De modo geral, a estabilidade da cotação do dólar e em patamar levemente desvalorizado (“alto” ou “caro”, na linguagem popular), tem influenciado positivamente o setor externo. As exportações brasileiras se destacaram nesse período, registrando diversos recordes.

Há uma pressão para valorização do dólar, por conta das políticas comerciais estadunidenses (particularmente, a guerra comercial iniciada com a China) que pode ocasionar uma pressão para desvalorização do real (caso as coisas mantenham-se como estão por aqui). Isso pode influenciar positivamente a balança comercial.

Por outro lado, a tímida melhora da economia brasileira tem influenciado uma melhora sutil das importações. Isso pode exercer impacto contrário na cotação da moeda nacional, tornando-a mais valorizada (mais barata). De modo geral, é importante ter em mente que o cenário atual tende a manter-se, mas há pressões especialmente para desvalorização da moeda, caso a guerra comercial se aprofunde.

CENÁRIOS

Cenário Base

Apesar dos resultados negativos dos principais setores da economia brasileira no primeiro mês do ano, os indicadores de comparação interanual devem apresentar alguma melhora, principalmente em função do carregamento estatístico, ou seja, ainda que cresçamos aos trancos e barrancos em 2018, é provável que os números agregados apresentem melhoras em relação a 2017.

As eleições de 2018 e as políticas comerciais de Donald Trump são potenciais em trazer alguma volatilidade no câmbio brasileiro, no entanto, uma inflação persistentemente baixa, aliada a um cenário externo ainda bastante favorável ao Brasil, nos deixam tranquilo quanto ao aumento do dólar, ainda que ocorra de forma repentina e inesperada.

A inflação deve permanecer em patamares abaixo dos que foram assumidos pela autoridade monetária e com isso a política monetária expansionista deve ser prolongada e intensificada, tentando trazer, via consumo, o crescimento econômico que se espera.

Cenário Otimista

Um candidato de centro com ideais mais ligados ao liberalismo econômico deve conduzir a uma retomada do investimento privado, ainda que este seja inibido em função da ampla capacidade produtiva sem utilização neste momento na economia brasileira.

A retomada desta confiança deve ser estimulada pelas promessas, já feitas por alguns pré-candidatos à presidência, de aprovação da reforma da previdência e diminuição do tamanho do Estado na economia.

Com a inflação sob controle o setor externo em harmonia com o que havia sido pretendido pelo governo brasileiro, algum investimento privado associado ao crescimento pela ótica da demanda deve conduzir o Brasil de forma definitiva ao caminho da retomada do crescimento.

Cenário Pessimista

Pelo nível de endividamento de empresas e famílias, o processo de crescimento pelo consumo deve esvanecer no decorrer do ano, transformando em blefe a última cartada do governo Temer. Com o governo de mãos atadas no que diz respeito ao estímulo da demanda agregada, restaria ao setor privado a responsabilidade pelo crescimento via investimentos.

Contudo, isso não deve acontecer por dois motivos: em primeiro lugar pelo excesso de capacidade ociosa, que permite o crescimento no curto e médio prazo sem que haja investimentos relevantes; e em segundo lugar pelo clima de incerteza que está ligado ao processo eleitoral brasileiro que deve fazer postergar boa parte dos investimentos possíveis e necessários do setor privado.

A falta de consumo e investimentos, além do governo inoperante neste sentido deve fazer do ano de 2018 um 2017/2, com crescimento marginal mantido com a precariedade do mercado de trabalho e permanência do processo de desalavancagem do setor privado.

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