O Conteúdo do Envelope

Por Aurélio Hess e Celso Campos.

Mark estava estupefato. Acreditava, porém, que o conteúdo do envelope esclareceria, de uma vez por todas, o que realmente acontecera. Sentia um misto de vergonha e orgulho ferido, decepção e admiração por Bórkum, raiva e amor por Kate. Estava muito confuso, sentindo aquele frio no estômago novamente. Com o coração apertado, abriu o envelope, rasgando-o sem cuidado, até encontrar o conteúdo. Encontrou três documentos:

  • O estatuto de um orfanato;
  • Um relatório de investimentos em ações de empresas brasileiras;
  • Um laudo de reconstituição policial do assassinato de Christine.

O coração de Mark sinalizava um colapso nervoso de ansiedade. Resolveu ler os documentos na ordem em que encontrou.

No estatuto do orfanato, Bórkum constava como mantenedor e membro da diretoria, tendo assumido o compromisso de participar de reuniões bimestrais na entidade em São Paulo – Brasil. Mark observou que Bórkum ainda havia se comprometido a participar pessoalmente das atividades do orfanato, sem que isto fosse divulgado a qualquer entidade ligada à mídia. O anonimato era importante para não desvirtuar os propósitos da instituição.

No relatório da carteira de investimentos em ações, Mark encontrou uma lista de empresas brasileiras que tiveram valorização expressiva entre 2003 e 2007. Entendeu que qualquer pessoa que tivesse investido naquelas empresas, teria ganho muito dinheiro. Eram informações de domínio público, que Mark até já conhecia de trabalhos anteriores.

O laudo de reconstituição policial do assassinato de Christine, numa folha com o timbre da polícia brasileira, no entanto, foi o que mais chamou atenção de Mark. Leu o documento algumas vezes até conseguir recompor em sua mente a cena descrita:

Novembro de 2006. São Paulo – Brasil. Mais importante cidade e maior metrópole da América Latina. Avenida Paulista, esquina com Rua Augusta. Oito horas da noite. Christine e Bórkum seguiam para o Teatro Imprensa, no centro de São Paulo. Bórkum dirigia um Honda novo. Christine, ao lado, no banco do passageiro. Christine e Bórkum sorriam, lembrando as piadas com as quais divertiram seus amigos durante o jantar. Parados no semáforo conversavam distraídos, com os vidros abertos, quando se aproximaram três jovens corpulentos e aparentando impaciência.

Dois chegaram pelo lado esquerdo, na porta do motorista, o outro correu para o lado direito, abordando Christine. Uma arma apontada para cada um. Bórkum, olhando para os rapazes do seu lado, não teve tempo de entender o que estava acontecendo. Christine, mais acostumada à realidade paulistana, já segurava a bolsa com força no colo, quando ouviu os gritos:

– Entrega a bolsa. Entrega a bolsa logo. ENTREGA LOGO, VAGABUNDA!

Quando viu o revólver apontado em sua direção, Bórkum entendeu do que se tratava e tentou acalmar os rapazes, desesperados para correr logo após o assalto.

Ao seu lado, em estado de choque, desesperada, sem saber o que fazer, Christine permanecia agarrada à sua bolsa, como que para se proteger do eventual tiro da arma apontada em sua direção. Surda aos gritos do assaltante, em choque, olhava freneticamente para os dois lados. Christine gritava tentando evitar que o rapaz disparasse a arma, enquanto procurava chamar a atenção de Bórkum:

– Bórkum… Bórkum… Não, pelo amor de Deus, não atire!

“O estampido do disparo que atingiu o peito de Christine ensurdeceu Bórkum, que ficou por alguns segundos em estado de choque, olhando para sua amada, sangrando imóvel”.

Desesperado, Bórkum verificou a pulsação de Christine. Sem pulsação. Olhou à sua volta, procurando alguém para socorrer Christine. Ninguém se aproximava, embora a curiosidade fosse grande. O peito em sangue e o coração parado confirmaram a morte de Christine.

Bórkum descontrolado e sem saber ao certo o que fazer, olhou para a esquerda e conseguiu ver os rapazes, que corriam pela Rua Augusta, em direção ao centro velho de São Paulo.

Num impulso impensado, saltou do carro, atravessou a avenida correndo e seguiu tentando alcançar os ladrões, como se isso pudesse devolver-lhe a vida roubada de Christine. Correu por uns 20 quarteirões, em velocidade acima da sua média, peito ofegante e coração a sair pela boca. Numa rua escura, viu três homens conversando e vasculhando coisas de uma bolsa preta grande. Reconheceu a bolsa de Christine. Correu na direção dos homens e foi atingido na cabeça por um quarto homem escondido atrás do pilar.

Bórkum foi localizado às 15:30h da tarde do dia seguinte, desmaiado num beco, com hematomas por todo o corpo e um braço quebrado. Sem documentos, sem dinheiro, com um assustador ferimento na cabeça e sem memória de curto prazo.

Os amigos, que deveriam ter sido encontrados no teatro, leram a manchete nos jornais e solicitaram a busca.

Na casa dos amigos, à noite, já medicado e após depoimento na delegacia, Bórkum, com o peito embargado em dor, saudade e lágrimas, leu a manchete que amanheceu nas bancas, enquanto ele estava desmaiado no beco:

“Professora encontrada assassinada
em carro de empresário Sueco”

Bórkum, com o coração destruído e lágrimas nos olhos, recortou lentamente o jornal, com profunda indignação, como se tocasse a última lembrança de sua amada. Guardou o recorte de jornal, como se guardasse algo muito delicado e de valor imensurável.

Na manhã seguinte, a mídia se retratou, alterando e corrigindo a história, com a manchete:

“Empresário sueco e professora brasileira
vítimas de um violento assalto”

Bórkum, no entanto, desinteressado e em profundo sofrimento por sua perda inestimável, não leu os jornais naquela manhã.

Mark sentia suas mãos e pés gelados, o estômago ardendo e os movimentos do coração provocando falta de ar. Quando tentou guardar os documentos no envelope, sentiu que havia algo preso atrás da última folha. Encontrou um bilhete escrito a mão:

Caro Mark,

Escrevi este bilhete, mas acredito que você nunca chegará saber seu conteúdo. Entendo que você, como bom jornalista, tentará investigar informações que possam validar suas opiniões sobre mim, antes de publicar seu trabalho. Isto é correto. Fiz com que este envelope chegasse às suas mãos, num suposto engano, para que você tivesse a oportunidade de mostrar quem é. Não apenas a mim, mas principalmente a você mesmo!

Admiti 6 diferentes possibilidades:

  1. Você nota que recebeu um envelope por engano. Não viola a ética. Não lê as informações. Devolve na primeira oportunidade. Eu abro o envelope e esclareço suas dúvidas. Você faz seu trabalho em paz. Eu provo minha tese de que as pessoas merecem confiança.
  2. Você abre. Viola sua ética. Devolve na primeira oportunidade com o lacre refeito, fingindo honestidade. Eu abro o envelope e esclareço suas dúvidas. Você faz seu trabalho em paz, mas leva na consciência o peso da fraude. Prova que as pessoas não merecem confiança.
  3. Você abre. Viola sua ética. Não devolve, na esperança de que eu acredite que este envelope nunca chegou às suas mãos. De posse das informações, pode escrever sua matéria em paz, mas saberá que nenhum de nós pode confiar em você! Prova sua tese.
  4. Você não abre, tentando manter sua integridade. Não viola sua ética, mas prova desonestidade ao não devolver, simplesmente para ter um trunfo na manga se vier a precisar. Não poderá fazer seu trabalho em paz por desconfiar de mim e ainda saberá que nenhum de nós pode confiar em você! Prova sua tese.
  5. Você desconfia do engano. Abre. Lê. Traz aberto e propõe conversarmos. Não mente. Não finge. Eu esclareço tudo. Você faz seu trabalho em paz. Prova minha tese.
  6. Você me surpreende!

Mas, em qualquer das hipóteses, meu objetivo terá sido atingido: “Alguém aprendeu uma coisa importante com tudo isso”.

Um abraço.
Do amigo Bórkum.

Mark ficou paralisado. Por quase uma hora, seu cérebro se recusava a funcionar. Olhava para o ‘nada’ e via imagens diversas, vagas, incompletas e inconsistentes a vagarem por sua mente, perturbando-o ainda mais.

Reorganizou-se. Releu as cartas. Releu o laudo de reconstituição do assassinato. Nada era capaz de tirar o estupor de sua face e o absoluto branco de sua mente. Permaneceu por alguns minutos assim, até que uma lembrança trouxe o alívio de que necessitava: felizmente não havia permitido a publicação do artigo. Não iria macular a imagem daquele novo amigo, a quem agora Mark definitivamente admirava. “Perdi o emprego, mas não perdi minha dignidade, não perdi a admiração de meus pais, nem meu grande amor. Não perdi a confiança do meu grande amigo Richard – que ainda será promovido – e não prejudiquei um homem de nobreza indiscutível. A revista está no chão, em frente a minha porta, com algum artigo ‘tapa-buracos’ que meu editor-chefe decidiu publicar de última hora”.

“OK!” Pensou Mark. “Vida nova!”.

Levantou-se da poltrona aliviado, sentindo a tranquilidade voltando lentamente para o seu ser, e caminhou em direção à porta para pegar a revista.

Perdeu o texto anterior? Leia aqui ou veja todos os capítulos da série aqui.

Aurélio Hess, graduado em Administração de Empresas, Mestre em Administração e Planejamento Financeiro pela PUC/SP e MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV/SP, trabalha com projetos há mais de 20 anos. Atualmente Controller de Projetos, já atuou em 5 das 20 maiores empresas brasileiras, dentre elas, Bradesco, Sharp, Gradiente, Tectoy e CSN – Cia. Siderúrgica Nacional. Professor Universitário nos últimos 15 anos em algumas das maiores universidades do país. É autor das seguintes obras: Gestão Financeira de Negócios (Cart-Impress, 2005) e Relações Internacionais, crise e muito mais… (Scortecci, 2015).

Celso Ribeiro Campos é Físico, Engenheiro, Mestre em Ensino da Matemática e Doutor em Educação Matemática pela UNESP. Professor da PUC-SP, ministra as disciplinas de Economia Matemática, Econometria e Microeconomia nos cursos de graduação em Ciências Econômicas e Mestrado Profissional em Economia da Mundialização e do Desenvolvimento (em parceria com a Université Paris 1 – Panthéon Sorbonne). É membro do Grupo de Pesquisa em Educação Estatística da UNESP e autor das seguintes obras: Matemática Financeira (LCTE, 2010) e Educação Estatística – teoria e prática em ambientes de modelagem matemática (Autêntica, 2011).

Os textos que fazem parte da história “Relações Internacionais, Crise e Muito Mais…” são de total responsabilidade dos seus autores. A equipe do Análise Econômica não interfere no seu conteúdo, forma, ortografia, gramática. Solicitações de reprodução devem ser dirigidas diretamente a eles.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *