Por dentro da crise na Petrobras – capítulo 2

Por Vinicius Oliveira e Márcio Durigan.

Logo após o anúncio da saída de Graça Foster da presidência da Petrobras na última quarta-feira, dia 4, junto com mais cinco diretores, o mercado deu uma resposta positiva, e jogou para cima as ações da empresa em mais de 15%, (números do jornal o Estado de SP), quebrando um longo período de queda acentuada.

Já o anúncio do atual presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, nessa quinta-feira, como futuro presidente da Petrobras, trouxe uma queda de, em média, 9% nos papéis dos acionistas, segundo o jornal Valor Econômico. Analisando friamente os números podemos entender que realmente o nome não cativou o mercado, como era esperado supor, dada a crise de gestão e credibilidade que enfrenta a empresa.

Especular como será sua administração à frente da companhia é, no mínimo, tentar prever o futuro, e esse definitivamente não é o nosso foco. Então, vamos elencar alguns fatores que podem ter feito o mercado brincar de pique-esconde com as ações da Petrobras.

1. Excesso de interferência política: mesmo com fortes críticas vindas de todos os lados, pelo fato de Graça Foster ter sido protegida pela presidência, Dilma Rousseff resistiu até o limite para se manifestar e apresentar algum plano de mudança para a Petrobras, dados os escândalos em que a estatal está envolvida. Se a intenção da presidente ao indicar Bendine era dar uma resposta ao mercado, neutralizando os efeitos negativos, o tiro não atingiu o alvo. Ninguém confia em uma empresa que se preocupa mais com a vitrine do que com a qualidade do produto.

2. Repetição dos padrões: a história parece se repetir. Novamente é a escolha direta da presidência por um funcionário de carreira, pinçado de uma empresa do Estado e muito próximo a Dilma Rousseff. Lembra muito o perfil de Graça Foster, que acabou de sair.

3. Fator surpresa: todos gostam de ser ouvidos, principalmente os que pagam por isso – nesse caso os acionistas – e em nenhuma das rodas de apostas aparecia o nome de Aldemir Bendine. Quem carimba a indicação de um novo dirigente é o Conselho de Administração da empresa, formado majoritariamente por pessoas ligadas ao governo, sete no total. Segundo o jornal Folha de SP, os outros três representantes do conselho, justamente aqueles que o mercado considera independentes, soltaram fumaça preta para o nome de Bendine (os representantes dos acionistas dos papéis preferenciais e ordinários, minoritários na composição da estatal, e o representante eleito pelos trabalhadores). Como a indicação veio diretamente de Dilma, o placar previsto foi cravado: sete votos a favor, três contra. Já há um movimento desses votos contrários para que Bendine não seja empossado, segundo o jornal Valor Econômico.

4. Menos Estado e mais iniciativa privada: uma das conclusões retiradas dos relatórios das auditorias realizadas pela Petrobras é que, além da corrupção, grande parte do déficit fiscal da Petrobras deve-se à má gestão. Não que a iniciativa privada seja perfeita, mas só o fato da empresa não sofrer decisões de cunho político já é um entrave a menos na busca pela correção de dados.

5. Nome com a folha corrida manchada por interrogações: talvez inspirada na recente escolha de seu ministério, Dilma indica alguém com suspeições (para não sermos desrespeitosos) em cima de alguns fatos ainda não resolvidos. Como o famoso empréstimo de R$ 2,7 milhões para a socialite Val Marchiori (sem a contrapartida de garantias, e ainda por cima inadimplente com o banco), que Bendine aprovou quando era presidente do BB. E ainda tem a denúncia do ex-motorista do futuro presidente da Petrobras. Sebastião Silva afirmou que levou Aldemir Bendine ao encontro do empresário Marcos Garms, e lhe entregou uma sacola recheada com notas de R$ 100. Em matéria de ex-motorista, Dilma deveria ter se lembrado de Eriberto França, um ex-motorista que acabou por derrubar um presidente. Uma vez que hoje Collor é aliado do governo, seria interessante a presidente ter se aconselhado com o senador alagoano…

Resumo da ópera: a mensagem do mercado é que o modelo atual de gestão com altíssima interferência governamental e baixíssima transparência está saturado. Isso é muito fácil de se ver. Só que esse tipo de constatação geralmente não agrada a esse governo, que parece ter algum prazer mórbido em ignorar os sinais do mercado.

Fontes:
Saída de Graça Foster – http://glo.bo/1DIdCSC
Petrobrás dispara na Bolsa – http://bit.ly/1zyYiqS
Ações sobrem após anúncio da Estatal – http://bit.ly/1C6CfbR
Conselho se reúne para escolher nova diretoria – http://glo.bo/1ziptm0
Nomeação de Aldemir Bendine – http://bit.ly/1xyZSES
Bovespa cai frustrada com Bendine – http://bit.ly/16CY2wZ
Minoritário vota contra Bendine e fala em imposição – http://bit.ly/16uO3JN

Créditos de Imagem: http://bit.ly/1KyLy6w

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