Rombo nas contas públicas piora cenário para investimentos em 2016

Por Weruska Goeking (O Financista)*

O Brasil retrocedeu 8 anos quando o assunto é investimento. A expectativa é que o patamar baixo seja mantido até o fim de 2016. Do lado do investimento privado, os níveis recordes de baixa confiança endossam a projeção.

“A sinalização é sempre negativa em termos de criação de expectativa. É difícil falar na retomada [de investimentos] quando vemos falta de confiança gigantesca e isso vai continuar pesando nos investimentos”, afirma Jankiel Santos, economista-sênior do Banco Espírito Santo de Investimento (Besi).

Do lado do investimento público, o anúncio de déficit primário de R$ 30,5 bilhões em 2016 sinaliza que os gastos serão controlados e anotados na ponta do lápis. Estão previstos R$ 42,4 bilhões em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2016, sendo apenas R$ 12,4 bilhões voltados para infraestrutura logística.

No segundo trimestre deste ano, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) caiu pela oitava vez consecutiva na comparação trimestral e representou 17,8% do Produto Interno Bruto (PIB), no menor patamar para o período trimestre desde 2007. A FBCF engloba basicamente máquinas, equipamentos e materiais de construção.

André Galhardo Fernandes, mestre em economia política, destaca que mesmo quando os investimentos cresciam a proporção em relação ao PIB era “muito baixa para um governo que quer uma reforma estruturante”. “O governo já sinalizou diminuição nos gastos e as empresas vivem a insegurança política e econômica. Acho que por parte da iniciativa privada os investimentos serão postergados por um período maior. Ou seja, deve piorar”, diz Fernandes.

Além de não ver qualquer sinalização de melhora nos aportes nos próximos 18 meses, Jankiel Santos prevê que o nível de investimentos deve encerrar 2015 em queda e registrar seu pior resultado trimestral, “batendo no fundo do poço”, em 2016. “O governo será tão criticado ao fazer um déficit que vão querer controlar os gastos de alguma forma. Esse controle só tem sido feito em investimento público, que já está comprometido para o ano que vem”, explica Santos.

Os economistas são unânimes em afirmar que os investimentos estão tão escassos que, em algum dos trimestres até o fim de 2016, até podem evitar a queda e mostrar estagnação ou ligeiro aumento. Contudo, não se tratará de uma melhora de cenário, mas uma base de comparação baixa demais.

“Não há nenhuma perspectiva de mudança no dado no prazo de 6 trimestres. Talvez encontremos algum crescimento, mas esse se dará sobre bases muito pequenas, serão desprezíveis”, avalia Fernandes.

Mudanças

O especialista em economia política observa que para a taxa de investimento “decolar” é preciso uma mudança significativa na condução da economia do país.

A redução da burocracia é apontada por Fernandes como fator necessário para a melhora da condução de negócios privados, assim como uma taxa de juros menor.

“Os juros estão baixos no mundo todo e, é verdade, em alguns lugares isso não tem gerado investimento. Porém, no Brasil a taxa chega a ser uma anomalia e isso é um entrave para o desenvolvimento”, avalia.

Capacidade ociosa

A queda na confiança reduz os investimentos para ampliação e modernização de indústrias, mas a demanda cada dia mais fraca também aumenta a capacidade ociosa das empresas.

De acordo com Antônio Corrêa de Lacerda, ex-presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), é nesse espaço que o crescimento da indústria acontecerá quando a economia começar a reaquecer. “A queda nos investimentos não impedirá essa retomada, que pode vir primeiro pelo consumo, mas em um segundo momento a taxa de investimento precisará acompanhar”, explica Lacerda, embora reconheça que o parque industrial brasileiro já está, em sua grande parte, envelhecido.

Quando se trata de logística, o maior gargalo de investimentos atualmente, o economista acredita que as concessões com parceria público-privadas (PPP) no Plano de Investimentos em Logística (PIL) serão um “instrumento de alavancagem de investimentos”.

*Obs.: matéria originalmente publicada em 01 de setembro de 2015, pelo portal O Financista <http://www.financista.com.br/>, uma iniciativa da casa de investimentosEmpiricus<http://www.empiricus.com.br> para desenvolver o jornalismo econômico na internet.

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