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Coluna do Galhardo #020:O futuro do trabalho que Keynes imaginou e o presente que ainda resistimos a construir

Análise Econômica · · 3 min de leitura

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Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes publicou Possibilidades Econômicas para Nossos Netos, ensaio no qual imaginava que o progresso tecnológico e os ganhos de produtividade permitiriam, em aproximadamente cem anos, jornadas de trabalho de apenas 15 horas semanais. O desenvolvimento econômico, portanto, não deveria proporcionar apenas maior produção de riqueza, mas também mais tempo livre para desfrutá-la.

Quase um século depois, a previsão de Keynes permanece distante da realidade de milhões de trabalhadores. A automação revolucionou a indústria, a informatização transformou os serviços e, mais recentemente, a inteligência artificial passou a executar tarefas antes consideradas exclusivamente humanas. Entretanto, enquanto discutimos a possibilidade de máquinas substituírem parte do trabalho humano, ainda enfrentamos resistências à ideia de que as pessoas possam trabalhar menos.

É nesse contexto que o debate brasileiro sobre o fim da escala 6 por 1 ganha relevância. A discussão ultrapassa a reorganização dos dias de trabalho e descanso, alcançando uma questão econômica fundamental: como distribuir os benefícios do progresso tecnológico e dos ganhos de produtividade?

A resistência de determinados segmentos empresariais não é inteiramente desprovida de fundamentos. A redução da jornada, sem diminuição proporcional dos salários, pode elevar custos, especialmente em atividades intensivas em mão de obra, empresas com margens reduzidas e estabelecimentos que precisam funcionar continuamente. O cenário de desemprego historicamente baixo também pode dificultar contratações adicionais em determinados setores.

Entretanto, reconhecer essas dificuldades não significa aceitar previsões generalizadas de inflação, desemprego ou fechamento de empresas. Os efeitos econômicos dependem de fatores como produtividade, concorrência, margens de lucro e capacidade de reorganização das atividades. Transformar riscos legítimos em consequências inevitavelmente catastróficas parece, em alguma medida, mais um exercício de retórica alarmista do que propriamente de análise econômica.

A inteligência artificial torna essa contradição ainda mais evidente. Sua capacidade de automatizar tarefas repetitivas e ampliar a eficiência produtiva recoloca uma questão que Keynes já antecipava: se conseguimos produzir cada vez mais com menos esforço humano, por que não converter parte desses ganhos em jornadas menores? Afinal, quem deverá se apropriar dos benefícios desse extraordinário avanço tecnológico?

Existe, contudo, uma dimensão frequentemente negligenciada nessa discussão: o custo humano do trabalho. Uma jornada de oito horas raramente representa apenas oito horas. Para milhões de brasileiros, é necessário acrescentar o tempo gasto no transporte público, os congestionamentos e o desgaste físico e emocional acumulado ao longo da semana. Embora esses períodos não integrem necessariamente a jornada remunerada, representam tempo efetivamente subtraído da convivência familiar, da educação, do lazer e do descanso.

O corpo humano não distingue tão facilmente o cansaço produzido dentro da empresa daquele provocado pelas horas de deslocamento. Tampouco a mente recupera imediatamente sua disposição quando termina o expediente. O tempo que o trabalho consome não se limita às horas que o empregador remunera.

É justamente nesse ponto que o debate econômico precisa recuperar sua dimensão humana. O trabalho é fundamental para a geração de riqueza e para a organização da sociedade, mas não pode ser confundido com a própria finalidade da existência. As pessoas trabalham para viver, não deveriam viver exclusivamente para trabalhar.

Naturalmente, uma transição responsável exige considerar as diferenças de produtividade entre setores, a elevada informalidade e a heterogeneidade da estrutura empresarial brasileira. Mas reconhecer a necessidade de adaptação não significa condicionar indefinidamente o progresso social à ausência de qualquer custo econômico. Afinal, conquistas como a limitação das jornadas e o descanso semanal também enfrentaram resistências ao longo da história.

Keynes não morreu de tanto trabalhar. E a gente também não precisa. Keynes morreu aos 62 anos, em 1946, deixando uma contribuição extraordinária à ciência econômica. Milhões de trabalhadores, entretanto, continuam submetidos a rotinas extenuantes que comprometem sua saúde, suas relações familiares e sua qualidade de vida.

Quase cem anos depois de Keynes imaginar jornadas de 15 horas semanais, talvez seja necessário reconhecer que avançamos extraordinariamente na capacidade de produzir riqueza, mas ainda encontramos dificuldades para transformar esse progresso em tempo livre.

O verdadeiro desafio econômico deste século não consiste apenas em produzir mais com menos recursos, mas também em decidir como distribuir os benefícios dessa eficiência.

Afinal, de que serve uma sociedade cada vez mais eficiente na produção de riqueza se seus trabalhadores continuam sem tempo para desfrutar da própria vida?

O futuro imaginado por Keynes não depende exclusivamente da tecnologia. Depende, sobretudo, das escolhas que fazemos no presente.

Esteja preparado(a) para os desafios que virão: conte com a Análise Econômica!


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